Sete dias, sete hamburgers - Dia 2 - BB Lanches

Instalado há décadas na esquina da Ataulfo de Paiva com Aristides Espínola, o BB Lanches é um ícone carioca. Frequento a lanchonete há mais de trinta anos, talvez quarenta e ela dispensa apresentações.  Não preciso dizer que os clientes chamam os atendentes pelo nome e vice-versa, que o cardápio não muda nunca, nem que o pastel de carne que eu comia de almoço quando era estagiário continua igualzinho. A única mudança retumbante foi que depois de anos pedindo e pagando, agora a gente tem que pagar e pedir. "Fichas no caixa", saca?
Não é a primeira vez que falo do BB aqui, já votei nele em algumas edições da Comer & Beber da Veja Rio entre 2006 e 2009 tanto como melhor sanduíche como melhor suco. Se tivesse uma categoria de melhor rissole ou melhor pastel, também ganharia meus votos.
Depois da frustração com o hamburguer Troisgros ontem, bastou atravessar a rua para resolver esse problema. O hamburguer do BB, o cheeseburguer com bacon para ser mais exato, é muito mais bem resolvido do que o do TT em absolutamente todos os aspectos com exceção talvez do marketing. Molho secreto? Pra quê molho secreto se você tem um bife de hamburguer saboroso, bem temperado e suculento? Pão de batata-doce, 200g, queijo meia cura, picles de chuchu, receita da família.....tudo parece um exagero de um mundo paralelo que existe do outro lado da rua. Less is more,é aqui, do lado par da Ataulfo.
É fato que hamburguer virou mainstream e a concorrência é grande, então a tentação por "melhorar", "diferenciar", "surpreender", "reler" passa a ser enorme quando se pensa no hamburguer como produto, como negócio. Aí eu imagino quantos chapeiros já passaram pela cozinha do BB fazendo exatamente o mesmo hamburguer enquanto a maioria das lojas ao redor mudavam de acordo com a moda. O BB deve estar fazendo alguma coisa certa mas que a concorrência não quer ou não sabe copiar.
Como fica evidente na foto abaixo, elegância não é o forte do cheesebacon com fritas do BB. Até dá para suspeitar de um certo desleixo. Ledo engano.
A primeira coisa que você prova são as batatinhas que cobrem o hamburguer e o prato. Elas são perfeitas, crocantes, salgadinhas e cabem na boca junto com o sanduíche que mesmo não sendo gigante, vem cortado ao meio, facilitando muito o trabalho de comê-lo. É ótimo ver que tem alguém pensando na interface do prato com o cliente. O nome moderno disso é usabilidade.
Antes da primeira mordida dá para ver que a carne está perfeitamente rosada e cozida por dentro, que a quantidade de queijo é justa e que o bacon ainda borbulha sua gordura.
Uma coisa típica de sanduíche de lanchonete é que depois de montado o conjunto volta para a chapa dupla e é levemente prensado enquanto o pão é aquecido. O resultado é um sanduíche que além de delicioso, é compacto, não desmonta, não pinga e onde os sucos da carne, queijo e bacon impregnam o pão quentinho. Tudo o que um sanduíche gostaria de ser.
Desconheço os temperos usados na carne e a origem do pão, do queijo e do bacon e não vejo razão para investigar. Nada me parece orgânico, gourmet ou com responsabilidade social mas estão lá, iguaizinhos, na mesma esquina - uma das mais caras da cidade -  alimentando gerações de cariocas que entre uma modinha e outra não dispensam sabor, personalidade e simplicidade no que comem. Não pode ser ruim, não podem estar todos errados, não pode não ser um bom negócio para os dois lados. 
Mesmo sem usar ingredientes e preparações mirabolantes, ou talvez por isso mesmo, o hamburguer do BB Lanches é desde sempre um dos melhores seja do lado impar ou do lado par da cidade. Vamos torcer para que continue assim por pelo menos mais trinta anos.

Hoje vou na talvez mais nova hamburgueria da cidade. De que lado da rua ela estará?
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A foto da fachada eu roubei do Diogo Carvalho do Destemperados.

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